segunda-feira, 10 de junho de 2013

#7 Teoria das Cores

Compreendida esta espécie de fidelidade, o artista pintou

«Compreendida esta espécie de fidelidade, o artista pintou um peixe amarelo.»

O peixe vermelho que vive na obra alimenta-se da realidade e do desassossego do artista.

E o artista transforma-se no aquário onde o peixe da sua obra vive, agora menos tranquilamente do que no aquário primitivo, alimentado pelo burburinho agitado da cidade, pelo trânsito ao final do dia, pelo vizinho que toca à campainha, pelo telefone a vibrar em cima da mesa, pelos insetos que invadem a sala nas noites de verão, pela respiração funda de um amor que dorme.

Então o peixe alastra pela obra adentro, instala-se na obra e no artista, revolve os seus fundamentos.

«Escrevemos sempre mais do que aquilo que sabemos», costumava repetir o poeta Jorge Melícias. Como forma de terminar perguntas infindáveis sobre a sua poesia, como manifestação de humildade, como resignação de uma certa impotência em domesticar a obra. «El artista trata de hacer lo que no sabe hacer en esa aventura», confirma CHILIDA[1].

A obra faz-se. Através do artista. Apesar do artista.

O peixe da obra é ainda o peixe no aquário em metamorfose. Mas é também um peixe com carros dentro, e telefones e campainhas altas. O artista abre fendas no vermelho do peixe, no fundo negro do peixe, na forma do peixe, nas vísceras do peixe. E o peixe da obra nada por dentro do sono do artista, e guarda insetos verdes no seu ventre de peixe. E o artista ama e odeia o peixe da sua obra, acolhe-o no seu ventre de homem, força o parto do peixe para dentro da obra.

Por instantes o artista transforma-se no peixe da sua obra, homem-peixe, obra-peixe, homem-obra.

Vermelho, negro, amarelo. Escrever, reescrever, reescrever-se. É esse o ofício do poeta. Como Herberto Helder, que lega à linguagem poética um rigor estremo. Como Jorge Melícias, que chegou a acordar a meio da noite o valter hugo-mãe (seu editor à data) para lhe dizer que encontrara a palavra exata do poema que lhe tirara o sono no último mês.

O artista reconfigura-se e reconfigura a obra. Abre fendas no imediatamente visível. Descobre por instantes a revelação. E o artista pinta um peixe amarelo. E assim desvela um pouco a face oculta do mundo.


[1] CHILIDA, Eduardo, Escritos, La Fabrica Editorial, Madrid, 2005, p. 46.

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