«Compreendida
esta espécie de fidelidade, o artista pintou um peixe amarelo.»
O peixe vermelho que vive na obra alimenta-se
da realidade e do desassossego do artista.
E o artista transforma-se no aquário onde
o peixe da sua obra vive, agora menos tranquilamente do que no aquário
primitivo, alimentado pelo burburinho agitado da cidade, pelo trânsito ao final
do dia, pelo vizinho que toca à campainha, pelo telefone a vibrar em cima da
mesa, pelos insetos que invadem a sala nas noites de verão, pela respiração
funda de um amor que dorme.
Então o peixe alastra pela obra adentro,
instala-se na obra e no artista, revolve os seus fundamentos.
«Escrevemos
sempre mais do que aquilo que sabemos», costumava repetir o poeta Jorge
Melícias. Como forma de terminar perguntas infindáveis sobre a sua poesia, como
manifestação de humildade, como resignação de uma certa impotência em domesticar
a obra. «El artista trata de hacer lo que no sabe hacer en esa aventura»,
confirma CHILIDA[1].
A obra faz-se. Através do artista. Apesar
do artista.
O peixe da obra é ainda o peixe no aquário
em metamorfose. Mas é também um peixe com carros dentro, e telefones e
campainhas altas. O artista abre fendas no vermelho do peixe, no fundo negro do
peixe, na forma do peixe, nas vísceras do peixe. E o peixe da obra nada por
dentro do sono do artista, e guarda insetos verdes no seu ventre de peixe. E o
artista ama e odeia o peixe da sua obra, acolhe-o no seu ventre de homem, força
o parto do peixe para dentro da obra.
Por instantes o artista transforma-se no
peixe da sua obra, homem-peixe, obra-peixe, homem-obra.
Vermelho, negro, amarelo. Escrever, reescrever, reescrever-se. É esse o ofício do poeta. Como Herberto Helder, que lega à linguagem poética um rigor estremo. Como Jorge Melícias, que chegou a acordar a meio da noite o valter hugo-mãe (seu editor à data) para lhe dizer que encontrara a palavra exata do poema que lhe tirara o sono no último mês.
O artista reconfigura-se e reconfigura a obra. Abre fendas no imediatamente visível. Descobre por instantes a revelação. E o artista pinta um peixe amarelo. E assim desvela um pouco a face oculta do mundo.
Vermelho, negro, amarelo. Escrever, reescrever, reescrever-se. É esse o ofício do poeta. Como Herberto Helder, que lega à linguagem poética um rigor estremo. Como Jorge Melícias, que chegou a acordar a meio da noite o valter hugo-mãe (seu editor à data) para lhe dizer que encontrara a palavra exata do poema que lhe tirara o sono no último mês.
O artista reconfigura-se e reconfigura a obra. Abre fendas no imediatamente visível. Descobre por instantes a revelação. E o artista pinta um peixe amarelo. E assim desvela um pouco a face oculta do mundo.
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