sábado, 15 de junho de 2013

#1 mas não sabes de onde vem nem para onde vai

«El asombro ante lo que desconozco fue mi maestro. Escuchando su inmensidad. He tratado de mirar, no sé si he visto.»
Eduardo Chillida

Ao aproximar-me da obra e pensamento de CHILLIDA, ocorreu-me a citação bíblica que dá origem a estas breves reflexões: «O vento sopra onde quer; ouves-lhe o ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim acontece com aquele que nasceu do Espírito» (João 3:8).
Assim também parece ocorrer com CHILLIDA, escultor de origem basca nascido a 10 de janeiro de 1924, escultor que contemplou as questões do espaço e da sua relação com o homem, perspetivando matéria e forma em harmonia com a natureza, como é particularmente visível nas esculturas de grande escala que desenvolveu em diversos espaços públicos.
A partir da abstração como veículo da expressão, CHILLIDA busca uma linguagem revestida de universalidade.
É um escultor não apenas de materiais mas de espaços, de corpos-espaços, conferindo aos espaços vazios e aos espaços interiores uma particular proeminência na sua obra escultórica.
Porventura influenciado pela sua formação em arquitetura em Madrid, CHILLIDA pautou a sua obra artística por uma capacidade constante de esculpir o espaço, de reinventar o espaço.
É aliás notória a busca incessante pela interação da escultura na paisagem circundante, em relação com a paisagem e os elementos.
Esta perspetiva permitiu-lhe salientar a dimensão humana da obra, potenciando o seu acolhimento pelo público e a sua integração na paisagem, não obstante a frieza e dureza dos materiais que utilizava.
Na verdade, após um período em Paris, onde emergiu nas artes plásticas e onde parece ter adquirido o fascínio pela escultura, CHILLIDA retorna a San Sebastián, a sua terra natal, e abraça o ferro, aço e a pedra como os elementos primordiais e característicos da sua escultura.
CHILLIDA é um homem com a consciência aguda de pertença a um lugar. Apesar disso (ou precisamente por isso), é um homem aberto ao mundo, às outras culturas e lugares, às mais fundas inquietudes humanas que se revelam apesar da (ou precisamente pela) diversidade dos tempos e dos espaços.
Nas palavras do escultor: «Yo soy de los que piensan, y para mí es muy importante, que los hombres somos de algún sitio. Lo ideal es que seamos de un lugar, que tengamos las raíces en un lugar, pero que nuestros brazos lleguen a todo el mundo, que nos valgan las ideas de cualquier cultura. Todos los lugares son perfectos para el que está adecuado a ellos y yo aquí en mi País Vasco me siento en mi sitio, como un árbol que está adecuado a su territorio, en su terreno pero con los brazos abiertos a todo el mundo»[1].
E com esta consciência aguda, CHILLIDA – o homem e o artista, forjado por um lugar e por um tempo que são os seus, aspirando sempre ao questionamento mais fundo e mais primordial, à originalidade da obra como encontro com a origem do ser – cria uma obra particular.
«Yo estoy tratando de hacer la obra de un hombre, la mía porque yo soy yo, y como soy de aquí, esa obra tendrá unos tintes particulares, una luz negra, que es la nuestra»[2], confirma CHILLIDA.
É assim a sua obra: reflexo de um questionamento agudo e de uma inquietação permanente: tempo e espaço, matéria e espaço, origem, reflexão, inquietude, verdade, revelação.
A busca e o desejo do desconhecido, questionamento partilhado por CHILLIDA com outros pensadores do seu tempo, parecem ter iluminado as reflexões do escultor sobre a sua obra.
Nas palavras do próprio CHILLIDA, «Desde el espacio con su hermano el tiempo bajo la gravedad insistente con una luz para ver como no veo. Entre el ya no y el todavía no fuí colocado. El asombro ante lo que desconozco fue mi maestro. Escuchando su inmensidad. He tratado de mirar, no sé si he visto.»[3]Perscrutar o real para ver sob uma outra perspetiva, movido pelo assombro perante o desconhecido, o imenso desconhecido.



[1] CHILLIDA, Eduardo, Vide http://www.museochillidaleku.com/.
[2] IDEM.
[3] CHILLIDA, Eduardo, Escritos, La Fabrica Editorial, Madrid, 2005, p. 41.

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