segunda-feira, 10 de junho de 2013

#4 Teoria das Cores

Assistia surpreendido à chegada do novo

«Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor vermelha até que principiou a tornar-se negro a partir de dentro, um nó preto atrás da cor encarnada. O nó desenvolvia-se alastrando e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário o pintor assistia surpreendido à chegada do novo peixe.»

Uma vez acolhida na obra a realidade, o artista começa a pintar. Não interessa porém ao artista pintar um qualquer peixe vermelho, uma caricatura distraída do real.

O artista – que se alimenta de realidade e desassossego – prende a atenção ao fundo insuspeito do peixe que vive tranquilamente no seu aquário, mergulha na sua realidade, penetra nos seus espaços interiores.

E apropria-se do vermelho do peixe, da forma do peixe, do sangue do peixe, das ovas dentro do peixe, da cadência respiratória do peixe, do movimento ritmado do peixe, da água em torno do peixe.

O artista procura mergulhar nas águas mais fundas, até ao fundo insuspeito do real, ver o peixe de todos os ângulos, por dentro, por fora e pelo seu reverso.

Esta atenção ao real não é a atenção de um cientista, não pretende o artista enunciar as leis que explicam a realidade. O artista busca detalhes novos, metamorfoses do real, metáforas vivas. O artista procura o momento exato em que, num vulgar aquário, um peixe vermelho «principiou a tornar-se negro a partir de dentro».

E o artista «assiste surpreendido à chegada do novo», mantendo-se aberto a encontrar o nó negro no fundo do real, a rasgar a visão pré-concebida.

Sem comentários:

Enviar um comentário