«Vivia
o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor vermelha até que principiou a
tornar-se negro a partir de dentro, um nó preto atrás da cor encarnada. O nó
desenvolvia-se alastrando e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário
o pintor assistia surpreendido à chegada do novo peixe.»
Uma vez acolhida na obra a realidade, o
artista começa a pintar. Não interessa porém ao artista pintar um qualquer
peixe vermelho, uma caricatura distraída do real.
O artista – que se alimenta de realidade e
desassossego – prende a atenção ao fundo insuspeito do peixe que vive
tranquilamente no seu aquário, mergulha na sua realidade, penetra nos seus
espaços interiores.
E apropria-se do vermelho do peixe, da
forma do peixe, do sangue do peixe, das ovas dentro do peixe, da cadência
respiratória do peixe, do movimento ritmado do peixe, da água em torno do
peixe.
O artista procura mergulhar nas águas mais
fundas, até ao fundo insuspeito do real, ver o peixe de todos os ângulos, por
dentro, por fora e pelo seu reverso.
Esta atenção ao real não é a atenção de um
cientista, não pretende o artista enunciar as leis que explicam a realidade. O
artista busca detalhes novos, metamorfoses do real, metáforas vivas. O artista
procura o momento exato em que, num vulgar aquário, um peixe vermelho «principiou a tornar-se negro a partir de
dentro».
E o artista «assiste surpreendido à chegada do novo», mantendo-se aberto a
encontrar o nó negro no fundo do real, a rasgar a visão pré-concebida.
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