segunda-feira, 10 de junho de 2013

#5 Teoria das Cores

A insídia do real abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor

«O problema do artista era que, obrigado a interromper o quadro onde estava a chegar o vermelho do peixe, não sabia o que fazer da cor preta que ele agora lhe ensinava. Os elementos do problema constituíam-se na observação dos factos e punham-se por esta ordem: peixe, vermelho, pintor - sendo o vermelho o nexo entre o peixe e o quadro, através do pintor. O preto formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.»

Não basta, porém, ao artista assistir de fora à metamorfose, ao surgimento do nó negro no fundo do real.

O artista transpõe para a obra a sua atenção ao real, o seu permanente estado de surpresa e de abertura à realidade, aos cambiantes da realidade, às alterações da realidade, à nova perceção do real.

Ainda que para tal tenha de se pôr em causa, de pôr em causa a obra.

Encontrando o nó negro no fundo do vermelho, o artista não pode mais bastar-se com o vermelho inicial. E vê-se obrigado a interromper a obra – ainda que o vermelho inicial confirme a primitiva fidelidade do artista, tornando-a consonante com a perceção mais imediatista da crítica e do público.

O artista não é – não pode ser – um mero repetidor de fórmulas vencedoras. Ainda que tenha encontrado a sua linguagem estética, essa linguagem deve refletir (como no momento do seu surgimento inicial) a busca interior do artista, o seu questionamento permanente, o contínuo labor de aperfeiçoamento das formas.

A experiência estética do artista é uma permanente abertura ao ensinamento do novo, uma incessante disponibilidade para penetrar o desconhecido. Ainda que (ou sobretudo porque) o novo e o desconhecido se afigurem como um problema para a obra e rompam a primitiva fidelidade do artista.

Sem comentários:

Enviar um comentário