«O
problema do artista era que, obrigado a interromper o quadro onde estava a
chegar o vermelho do peixe, não sabia o que fazer da cor preta que ele agora
lhe ensinava. Os elementos do problema constituíam-se na observação dos factos
e punham-se por esta ordem: peixe, vermelho, pintor - sendo o vermelho o nexo
entre o peixe e o quadro, através do pintor. O preto formava a insídia do real
e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.»
Não basta, porém, ao artista assistir de fora à metamorfose, ao surgimento do
nó negro no fundo do real.
O artista transpõe para a obra a sua
atenção ao real, o seu permanente estado de surpresa e de abertura à realidade,
aos cambiantes da realidade, às alterações da realidade, à nova perceção do
real.
Ainda que para tal tenha de se pôr em
causa, de pôr em causa a obra.
Encontrando o nó negro no fundo do vermelho,
o artista não pode mais bastar-se com o vermelho inicial. E vê-se obrigado a interromper
a obra – ainda que o vermelho inicial confirme a primitiva fidelidade do artista, tornando-a consonante com a perceção
mais imediatista da crítica e do público.
O artista não é – não pode ser – um mero
repetidor de fórmulas vencedoras. Ainda que tenha encontrado a sua linguagem
estética, essa linguagem deve refletir (como no momento do seu surgimento
inicial) a busca interior do artista, o seu questionamento permanente, o
contínuo labor de aperfeiçoamento das formas.
A experiência estética do artista é uma permanente abertura ao ensinamento do novo, uma incessante disponibilidade para penetrar o desconhecido. Ainda que (ou sobretudo porque) o novo e o desconhecido se afigurem como um problema para a obra e rompam a primitiva fidelidade do artista.
A experiência estética do artista é uma permanente abertura ao ensinamento do novo, uma incessante disponibilidade para penetrar o desconhecido. Ainda que (ou sobretudo porque) o novo e o desconhecido se afigurem como um problema para a obra e rompam a primitiva fidelidade do artista.
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