sábado, 15 de junho de 2013

#4 mas não sabes de onde vem nem para onde vai

Diálogo com o incomensurável

«O vento vem na sua suavíssima voz e toda a gente morre de súbito para mim.»
Ruy Belo

O diálogo das suas obras com o incomensurável anuncia o grande questionamento artístico de CHILLIDA: a ideia do espaço como um espaço vivo e em relação com o homem.
«La escultura debe siempre dar la cara, estar atenta a todo lo que alrededor de ella se mueve y la hace viva»[1], diz CHILLIDA. Ou como confirma HERBERTO HELDER, em A Teoria das Cores, belíssimo texto no qual o poeta reflete sobre a experiência artística na perspetiva do pintor, «a insídia do real (…) abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor[2].
Ora, as obras no espaço público, tão características no trabalho de CHILLIDA, são um exemplo paradigmático da atenção do artista à realidade, e da forma como essa realidade, só aparentemente conhecida, aponta os caminhos do desconhecido[3].
A escultura de CHILLIDA, como as demais manifestações artísticas dignas desse nome, nasce do questionamento, do risco, da rutura face à fidelidade primitiva do artista (a escultura como um mero corpo contra o espaço), potenciando o questionamento do artista a novas conceções do ser (a interpenetração de espaço e matéria, a revelação do espaço interior da escultura, o espaço como relação com outros espaços). Como confessa o escultor, «La obra es para mí contestación y pregunta»[4].
As obras de CHILLIDA são esculturas abertas ao horizonte e, nessa medida, à escala do homem. Na verdade, o horizonte comporta essa abertura do espaço (espaçamento) e a possibilidade de ligação entre todos os homens, a possibilidade de um lugar comum, de uma região, a possibilidade de relação[5].
«Mis obras, las obras, son ecos que conservan en el tiempo, para el oído humano, la voz sorda de la luz»[6], diz CHILLIDA. Escultura como câmara escura de revelação e memória oferecida aos homens, não já apenas de matéria, mas da voz, da luz, de espaços interiores, da verdade.
Esta característica anuncia uma outra possibilidade: a escultura (como as demais manifestações artísticas) tem a potencialidade de desvelar a verdade, não apenas através da sua dimensão corpórea e espacial (os cheios e vazios da obra), mas da sua interação com as demais dimensões (como o tempo) e os demais elementos e sentidos (como o ressoar e a vibração envolventes), e assim desvela um pouco, através da obra, a face oculta do mundo, a verdade, o imutável.
E penso nas palavras do escultor: «Quiero que el espacio en mi obra sea como el aceite que permite funcionar a una maquina. (…) Quiero que mis obras sean quietas y calladas, única manera de salir en parte de la influencia de tiempo».




[1] CHILLIDA, Eduardo, Escritos, La Fabrica Editorial, Madrid, 2005, p. 103.
[2] HELDER, Herberto, Teoria das Cores in Os Passos em volta, ed. Assírio e Alvim (10ª Edição), Lisboa, 2009, pp. 21 e 22.
[3] HEIDEGGER, Martin, El Arte y el Espacio, traducción de Jesús Adrián Escudero, Herder, Barcelona (2009), pp. 33.
[4] CHILLIDA, Eduardo, Escritos, La Fabrica Editorial, Madrid, 2005, p. 48.
[5] SARAMAGO, Sobre A arte e o espaço de Martin Heidegger, Artefilosofia, Ouro Preto, n.5, p. 61-72, jul.2008, pp. 63 a 70.
[6] IDEM, p. 58.

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