«Ao
meditar sobre as razões da mudança exactamente quando assentava na sua
fidelidade, o pintor supôs que o peixe, efectuando um número de mágica,
mostrava que existia apenas uma lei abrangendo tanto o mundo das coisas como o
da imaginação. Era a lei da metamorfose.»
O trabalho criativo não é apenas a atenção
ao real ou a execução da obra com vista à perfeição das formas. É também a
reflexão, mais ou menos consciente, mais ou menos sistemática, sobre a
atividade artística, sobre o processo criativo, sobre a sua obra, sobre a sua
visão do mundo.
Esta dimensão reflexiva parece-nos um
elemento essencial da experiência estética, porquanto conduz o artista a
encontrar e encontrar-se nas mais fundas águas do seu ser e da sua obra,
potenciando a sua fidelidade, não apenas em relação à perfeição de forma da
obra, mas a uma dimensão mais ampla de revelação de uma certa verdade sobre o
(seu) mundo.
Este aspeto central na experiência
estética é, de alguma forma, suscitado por DEWEY no ensaio «Having an experience», no qual, partindo da conceção da arte
como experiência, enquadra a questão da perceção da obra e da experiência artística
da seguinte forma: «The real work of an
artist is to build up an experience that is coherent in perception while moving
with constant change in its development»[1].
Nesta perspetiva, a experiência estética do
artista encontra-se intrinsecamente ligada ao ato de fazer a obra (pintar,
escrever, etc.), e à capacidade de o artista fazer e refazer a obra até se
encontrar plenamente satisfeito com a obra, isto é, até a obra refletir a sua
aguda exigência criativa e estética.
Este trabalho contínuo de aperfeiçoamento
da obra é, aliás, salientado nas diversas abordagens sobre a experiência
estética.
Desde logo numa perspetiva mais
tradicional[2], a
experiência artística tem uma natureza particular, porquanto é a experiência
descomprometida de outros interesses que não a experiência da obra de arte[3]
– ou seja, é uma experiência desinteressada, com valor intrínseco, sem que essa
experiência se encontre condicionada por outras motivações de carácter não
estético[4].
Certas ramificações desta perspetiva tradicional
sobre a experiência estética privilegiaram mesmo a forma da obra, em detrimento
da sua mensagem ou conteúdo (designadamente de carácter político ou religioso)[5].
Na atualidade, CARROLL parece recuperar,
ao menos em parte, essa linha de pensamento, salientando a atenção à forma da
obra na vivência da experiência estética. No entanto, considera que a
experiência estética pressupõe não apenas uma atenção à forma da obra, mas
ainda às qualidades estéticas ou expressivas da obra[6].
Sem prejuízo de reconhecermos que a
experiência estética se prende, em grande medida, com a perfeição de formas de
uma obra e às suas capacidades estéticas e expressivas, parece-nos porém que a
experiência estética extravasa essa dimensão, e contém em si a possibilidade de
nos revelar e nos fazer participar – artista e público – de uma certa verdade.
Esta ideia parece ter sido recuperada por
pensadores do século XX, partindo da tese tradicional (segundo a qual a
experiência estética é descomprometida de outros interesses, segundo a qual tem
um valor em si mesmo, não se encontrando ao serviço de quaisquer outros
interesses), salientando o carácter desinteressado e alegórico da experiência
artística[7].
Neste sentido, MARCUSE salienta o facto de
a arte abrir uma fenda para uma dimensão inacessível a outras experiências
porquanto liberta e autónoma das leis que regem o mundo e a sociedade,
abrindo-nos à possibilidade da utopia e, indiretamente, de um sentido crítico
em relação ao mundo e à sociedade.
Por sua vez, ADORNO salienta que a função
da arte é precisamente não ter função, e que esta dimensão negativa guarda em
si um poder desmistificador, porquanto abarca simultaneamente o potencial da
realidade social e um sentido crítico em relação a essa mesma realidade.
Ora, de acordo com esta perspetiva, a
experiência artística comporta uma dupla liberdade: o descomprometimento da
experiência estética face a outros interesses permite, por um lado, por em
causa a perspetiva da arte como um valor intrinsecamente transacionável[8],
salientando a sua dimensão humana; por outro lado, o facto de a experiência
artística se situar fora do perímetro do racional dominante na sociedade,
potencia um espaço livre à imaginação, potenciando a utopia e o sentido crítico
[9][10].
O trabalho artístico não é inconsequente.
A experiência estética não é inconsequente. Na perspetiva do artista, a
experiência estética é tecida de reflexão e revelação, pressupõe abertura e
atenção ao real, à fratura do real, pôr-se em causa, pôr a obra em causa, pôr o
contexto social em causa, meditar sobre as razões da rutura, sobre o fundo
insuspeito das coisas.
[1] DEWEY, John, Having an Experience, Perigee Books, The Berkley Publishing Group,
New York, 1980 [1934], p. 53. Nesta perspetiva, a experiência estética não é intrinsecamente diversa de
outra experiência, mas pelo contrário é o exemplo paradigmático de uma
experiência realmente valorizada pelo indivíduo enquanto uma experiência. Ou seja, neste sentido, mesmo as experiências
quotidianas têm um carácter estético, quando se demarcam das demais
experiências por os elementos e etapas que as constituem se conjugarem e
completarem de uma forma tão harmoniosa e una que, no fim da experiência, o
indivíduo experimenta uma sensação de consumação e não de mero fim ou extinção.
Contra esta abordagem da experiência estética, poder-se-á argumentar que certas
obras de arte contemporânea vêm, de certa forma pôr em causa esta abordagem:
por um lado, nem todas as experiências estéticas se estendem no tempo (por
exemplo, a experiência estética do público face à arte minimalista pode ser
imediata); por outro nem todas as obras de arte nos fazem experimentar uma
sensação de completude ou de unidade (por exemplo, no caso da música
experimental). Sobre a
temática, vide ainda – CARROLL, Noël,
Four Concepts of Aesthetic Experience,
Cambridge University Press, 2001, pp. 49 a 51.
[2] Sobre a temática, vide CARROLL, Noël, Four
Concepts of Aesthetic Experience, Cambridge University Press, 2001, pp. 44
a 49.
[3] Para KANT, que poderá enquadrar-se na perspetiva
tradicional sobre a experiência estética, a experiência estética está ainda
relacionada com a ideia de comprazimento perante o belo. A esta perspetiva
poderá contrapor-se que – embora salientando o prazer que comummente se extrai
da contemplação artística – se trata de uma tese que exclui certas
manifestações artísticas face às quais não experimentamos prazer nem beleza
(pense-se por exemplo nas obras que versam sobre o feio e o horror).
[4] Poderá discutir-se se o valor intrínseco da
experiência estética deve ser considerado de um ponto de vista objetivo
(independentemente de o indivíduo considerar que está a vivenciar uma
experiência estética ou não) ou subjetivo (tendo em conta a convicção do
indivíduo de estar a vivenciar uma experiência estética, pelo seu valor
intrínseco, e não por interesses ou motivações exógenas).
[5] Esta tese parece, porém, colidir com o facto de,
não só certas manifestações artísticas terem na base uma mensagem ou conteúdo
(de que são exemplos paradigmáticos a literatura e as artes cénicas e
performativas); bem assim, grande parte das obras da cultura ocidental,
incluindo as artes plásticas, têm uma mensagem ou conteúdo mais ou menos
manifesto. Ora, nestes casos, a experiência estética (do artista e do público)
terão em conta, não só a forma da obra, como essa mensagem ou conteúdo.
[6] CARROLL, Noël, Four Concepts of Aesthetic Experience, Cambridge University Press, 2001,
pp. 58 a 62.
[7] Sobre a temática, vide CARROLL, Noël, Four Concepts of Aesthetic Experience, Cambridge University Press, 2001,
pp. 51 a 58.
[8] Sobre o mercado da arte na atualidade, vide BELTING, Hans, “Arte contemporânea como arte global: uma avaliação crítica”, tradução
Sofia Lourenço, Marte 4. Da Criação Artística à Intervenção Espacial, 2011,
pp.20-51.
[9] De um ponto de vista kantiano, da qual esta
perspetiva é herdeira, a dupla liberdade da experiência estética emerge de duas
dimensões fundamentais: por um lado, é uma experiência desinteressada, na
medida em que é livre de outros interesses que não o interesse da experiência
estética em si mesmo; por outro lado, durante a experiência estética,
entendimento e a imaginação encontram-se estimulados e ativos mas livres do
jugo dos sentidos (ao contrário do que sucede no exercício da razão teórica e
prática, em que o conhecimento atua mediante um sistema de operações que
permitem a subsunção de um objeto sob um conceito, através das categorias do
entendimento).
[10] Em contraponto, poderá argumentar-se que
esta perspetiva é redutora, porquanto nem todas as experiências artísticas
partilham desta dupla liberdade em relação a interesses acessórios
(designadamente de mercado) ou à razão instrumental (potenciando um espaço
livre à imaginação).
Sem comentários:
Enviar um comentário