segunda-feira, 10 de junho de 2013

#6 Teoria das Cores

Ao meditar sobre as razões

«Ao meditar sobre as razões da mudança exactamente quando assentava na sua fidelidade, o pintor supôs que o peixe, efectuando um número de mágica, mostrava que existia apenas uma lei abrangendo tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Era a lei da metamorfose.»

O trabalho criativo não é apenas a atenção ao real ou a execução da obra com vista à perfeição das formas. É também a reflexão, mais ou menos consciente, mais ou menos sistemática, sobre a atividade artística, sobre o processo criativo, sobre a sua obra, sobre a sua visão do mundo.

Esta dimensão reflexiva parece-nos um elemento essencial da experiência estética, porquanto conduz o artista a encontrar e encontrar-se nas mais fundas águas do seu ser e da sua obra, potenciando a sua fidelidade, não apenas em relação à perfeição de forma da obra, mas a uma dimensão mais ampla de revelação de uma certa verdade sobre o (seu) mundo.

Este aspeto central na experiência estética é, de alguma forma, suscitado por DEWEY no ensaio «Having an experience», no qual, partindo da conceção da arte como experiência, enquadra a questão da perceção da obra e da experiência artística da seguinte forma: «The real work of an artist is to build up an experience that is coherent in perception while moving with constant change in its development»[1].

Nesta perspetiva, a experiência estética do artista encontra-se intrinsecamente ligada ao ato de fazer a obra (pintar, escrever, etc.), e à capacidade de o artista fazer e refazer a obra até se encontrar plenamente satisfeito com a obra, isto é, até a obra refletir a sua aguda exigência criativa e estética.

Este trabalho contínuo de aperfeiçoamento da obra é, aliás, salientado nas diversas abordagens sobre a experiência estética.

Desde logo numa perspetiva mais tradicional[2], a experiência artística tem uma natureza particular, porquanto é a experiência descomprometida de outros interesses que não a experiência da obra de arte[3] – ou seja, é uma experiência desinteressada, com valor intrínseco, sem que essa experiência se encontre condicionada por outras motivações de carácter não estético[4].

Certas ramificações desta perspetiva tradicional sobre a experiência estética privilegiaram mesmo a forma da obra, em detrimento da sua mensagem ou conteúdo (designadamente de carácter político ou religioso)[5].

Na atualidade, CARROLL parece recuperar, ao menos em parte, essa linha de pensamento, salientando a atenção à forma da obra na vivência da experiência estética. No entanto, considera que a experiência estética pressupõe não apenas uma atenção à forma da obra, mas ainda às qualidades estéticas ou expressivas da obra[6].

Sem prejuízo de reconhecermos que a experiência estética se prende, em grande medida, com a perfeição de formas de uma obra e às suas capacidades estéticas e expressivas, parece-nos porém que a experiência estética extravasa essa dimensão, e contém em si a possibilidade de nos revelar e nos fazer participar – artista e público – de uma certa verdade.

Esta ideia parece ter sido recuperada por pensadores do século XX, partindo da tese tradicional (segundo a qual a experiência estética é descomprometida de outros interesses, segundo a qual tem um valor em si mesmo, não se encontrando ao serviço de quaisquer outros interesses), salientando o carácter desinteressado e alegórico da experiência artística[7].

Neste sentido, MARCUSE salienta o facto de a arte abrir uma fenda para uma dimensão inacessível a outras experiências porquanto liberta e autónoma das leis que regem o mundo e a sociedade, abrindo-nos à possibilidade da utopia e, indiretamente, de um sentido crítico em relação ao mundo e à sociedade.

Por sua vez, ADORNO salienta que a função da arte é precisamente não ter função, e que esta dimensão negativa guarda em si um poder desmistificador, porquanto abarca simultaneamente o potencial da realidade social e um sentido crítico em relação a essa mesma realidade.

Ora, de acordo com esta perspetiva, a experiência artística comporta uma dupla liberdade: o descomprometimento da experiência estética face a outros interesses permite, por um lado, por em causa a perspetiva da arte como um valor intrinsecamente transacionável[8], salientando a sua dimensão humana; por outro lado, o facto de a experiência artística se situar fora do perímetro do racional dominante na sociedade, potencia um espaço livre à imaginação, potenciando a utopia e o sentido crítico [9][10].

O trabalho artístico não é inconsequente. A experiência estética não é inconsequente. Na perspetiva do artista, a experiência estética é tecida de reflexão e revelação, pressupõe abertura e atenção ao real, à fratura do real, pôr-se em causa, pôr a obra em causa, pôr o contexto social em causa, meditar sobre as razões da rutura, sobre o fundo insuspeito das coisas.



[1] DEWEY, John, Having an Experience, Perigee Books, The Berkley Publishing Group, New York, 1980 [1934], p. 53. Nesta perspetiva, a experiência estética não é intrinsecamente diversa de outra experiência, mas pelo contrário é o exemplo paradigmático de uma experiência realmente valorizada pelo indivíduo enquanto uma experiência. Ou seja, neste sentido, mesmo as experiências quotidianas têm um carácter estético, quando se demarcam das demais experiências por os elementos e etapas que as constituem se conjugarem e completarem de uma forma tão harmoniosa e una que, no fim da experiência, o indivíduo experimenta uma sensação de consumação e não de mero fim ou extinção. Contra esta abordagem da experiência estética, poder-se-á argumentar que certas obras de arte contemporânea vêm, de certa forma pôr em causa esta abordagem: por um lado, nem todas as experiências estéticas se estendem no tempo (por exemplo, a experiência estética do público face à arte minimalista pode ser imediata); por outro nem todas as obras de arte nos fazem experimentar uma sensação de completude ou de unidade (por exemplo, no caso da música experimental). Sobre a temática, vide ainda – CARROLL, Noël, Four Concepts of Aesthetic Experience, Cambridge University Press, 2001, pp. 49 a 51.
[2] Sobre a temática, vide CARROLL, Noël, Four Concepts of Aesthetic Experience, Cambridge University Press, 2001, pp. 44 a 49.
[3] Para KANT, que poderá enquadrar-se na perspetiva tradicional sobre a experiência estética, a experiência estética está ainda relacionada com a ideia de comprazimento perante o belo. A esta perspetiva poderá contrapor-se que – embora salientando o prazer que comummente se extrai da contemplação artística – se trata de uma tese que exclui certas manifestações artísticas face às quais não experimentamos prazer nem beleza (pense-se por exemplo nas obras que versam sobre o feio e o horror).
[4] Poderá discutir-se se o valor intrínseco da experiência estética deve ser considerado de um ponto de vista objetivo (independentemente de o indivíduo considerar que está a vivenciar uma experiência estética ou não) ou subjetivo (tendo em conta a convicção do indivíduo de estar a vivenciar uma experiência estética, pelo seu valor intrínseco, e não por interesses ou motivações exógenas).
[5] Esta tese parece, porém, colidir com o facto de, não só certas manifestações artísticas terem na base uma mensagem ou conteúdo (de que são exemplos paradigmáticos a literatura e as artes cénicas e performativas); bem assim, grande parte das obras da cultura ocidental, incluindo as artes plásticas, têm uma mensagem ou conteúdo mais ou menos manifesto. Ora, nestes casos, a experiência estética (do artista e do público) terão em conta, não só a forma da obra, como essa mensagem ou conteúdo.
[6] CARROLL, Noël, Four Concepts of Aesthetic Experience, Cambridge University Press, 2001, pp. 58 a 62.
[7] Sobre a temática, vide CARROLL, Noël, Four Concepts of Aesthetic Experience, Cambridge University Press, 2001, pp. 51 a 58.
[8] Sobre o mercado da arte na atualidade, vide BELTING, Hans, “Arte contemporânea como arte global: uma avaliação crítica”, tradução Sofia Lourenço, Marte 4. Da Criação Artística à Intervenção Espacial, 2011, pp.20-51.
[9] De um ponto de vista kantiano, da qual esta perspetiva é herdeira, a dupla liberdade da experiência estética emerge de duas dimensões fundamentais: por um lado, é uma experiência desinteressada, na medida em que é livre de outros interesses que não o interesse da experiência estética em si mesmo; por outro lado, durante a experiência estética, entendimento e a imaginação encontram-se estimulados e ativos mas livres do jugo dos sentidos (ao contrário do que sucede no exercício da razão teórica e prática, em que o conhecimento atua mediante um sistema de operações que permitem a subsunção de um objeto sob um conceito, através das categorias do entendimento).
[10] Em contraponto, poderá argumentar-se que esta perspetiva é redutora, porquanto nem todas as experiências artísticas partilham desta dupla liberdade em relação a interesses acessórios (designadamente de mercado) ou à razão instrumental (potenciando um espaço livre à imaginação).

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