«El artista trata de hacer lo que no sabe hacer en esa aventura»
Eduardo Chillida
Grande parte da obra de CHILLIDA, como do seu pensamento e percurso artístico, desenvolve-se em torno das noções de espaço público e da interação da obra com a natureza, enquanto vetores fundamentais na interpretação da obra de arte e prolongamento da sua narrativa estética.
A obra de CHILLIDA é reveladora da atenção aguda do artista à realidade, ao ambiente circundante, à paisagem, ao desconhecido que se oculta sob o conhecido.
É comovente essa atitude do artista, porque é precisamente esse caminho solitário de atenção e questionamento a pedra de toque do processo criativo: «(…) creo que a poetas y artistas les nace muerto todo aquello que saben hacer. Yo no creo en la enseñanza del arte, pero si hay algo que se pueda enseñar es esto. Todo lo demás hay que aprenderlo (que es muy distinto)»[1].
Por outras palavras, o trabalho artístico surge de dentro para fora, da aprendizagem e de descoberta dos espaços interiores do homem e da obra. Não se ensina, porque o trabalho artístico é uma aventura interior e solitária, é uma vanguarda, no sentido originário de avant-garde, aquele que se dispõe a caminhar na frente da batalhada busca interior e da inquietude, e se dispõe a desvelar uma verdade.
«¿No es tan vanguardia el crepúsculo como la aurora?»[2], questiona CHILLIDA, pondo em causa, de forma tão poética quanto radical, a perspetiva corrente de uma qualificação das manifestações estéticas a partir dos períodos históricos e dos movimentos estéticos em que se enquadram.
Sem dúvida que CHILLIDA é um artista forjado por um tempo e um lugar que são os seus – atual e contemporâneo. No entanto, a sua perspetiva do acontecimento artístico (que parece corroborada por HEIDEGGER) não se basta com o enquadramento no manifesto de uma forma de vanguarda, de um movimento, de uma forma de expressão.
Nas suas reflexões, transparece em CHILLIDA a herança da visão da arte e do labor artístico (a experiência estética do artista) como algo descomprometido de outros interesses, com um valor em si mesmo, não se encontrando ao serviço de quaisquer outros interesses que não a máxima fidelidade do artista à criação[3].
Alimentado pela reflexão, mais ou menos consciente e sistemática sobre a sua atividade artística, o seu processo criativo, a sua obra, a sua visão do mundo, os escritos de CHILLIDA revelam um homem em busca e ao encontro das mais fundas águas do seu ser e da origem da obra.
CHILLIDA parece intuir que só esta atitude – mais do que quaisquer qualificações ou identificações de uma obra com um movimento determinado ou com uma nova ordem económico-social ou mesmo uma reformulação no mercado da arte[4] – pode potenciar a fidelidade do artista, não apenas em relação à perfeição da forma da obra, mas a uma dimensão mais ampla de revelação de uma certa verdade sobre o (seu) mundo.
E ainda o vento que sopra onde quer. E o artista é o medium que lhe ouve o ruído. Mas não sabe de onde vem, nem para onde vai. E então «El artista trata de hacer lo que no sabe hacer en esa aventura»[5]. E a obra faz-se. Através do artista. Apesar do artista.
[1] CHILLIDA, Eduardo, Escritos, La Fabrica Editorial, Madrid, 2005, p. 46.
[2] IDEM, p. 103.
[3] Sobre a temática, vide CARROLL, Noël, Four Concepts of Aesthetic Experience, Cambridge University Press, 2001, pp. 51 a 58.
[4] BELTING, Hans, “Arte contemporânea como arte global: uma avaliação crítica”, tradução Sofia Lourenço, Marte 4. Da Criação Artística à Intervenção Espacial, 2011.
[5] IDEM, p. 46.
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