«Era
uma vez um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho.»
Na visão do poeta, a atenção do artista à
realidade – a realidade aparentemente mais insignificante («um aquário com um peixe vermelho») – é a
pedra de toque do processo criativo.
Este aspeto transparece em numerosas obras
de arte, sendo aliás muito comum que pormenores aparentemente insignificantes
do quotidiano sejam imortalizados por artistas plásticos (pense-se nas
representações de Van Gogh do seu quarto) ou escritores (como é recorrente na
poesia de Tolentino de Mendonça).
A realidade, a mais insignificante
realidade – o peixe vermelho no aquário, o burburinho agitado da cidade, o trânsito
ao final do dia, o vizinho que toca à campainha, o telefone a vibrar em cima da
mesa, os insetos verdes que invadem a sala nas noites de verão, a respiração
funda de um amor que dorme – surge por dentro da obra, imiscui-se no papel,
ganha o seu lugar na obra.
E o artista acolhe na obra a realidade. Imortaliza-
a.
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