Diálogo com o incomensurável (continuação)
«O vento vem na sua suavíssima voz e toda a gente morre de súbito para mim.»
Ruy Belo
Como confessei, a obra de CHILIDA conheço-a dos livros e das imagens. Nunca estive perante a estrutura em ferro cravada na montanha antiga, a tingir e a entregar-se à montanha, e a montanha tingida do ferro e fustigada de vento, o vento a assobiar por dentro da obra, a desvelar a obra e o espaço.
Mas ao olhar para as imagens da obra de CHILLIDA, e ao ler os seus escritos, não é só o volume da obra, a forma e a matéria, o cheio e o vazio que desvelam a verdade, mas as dimensões e elementos extra-espaciais: o tempo, o horizonte, o vento, os fenómenos primitivos, ancestrais, originários, que são a origem e o alimento da obra de arte verdadeira e original.
E tudo isto me recorda RUY BELO: «O vento vem na sua suavíssima voz e toda a gente morre de súbito para mim»[1].
E ainda o El Peine del Viento. Fustigando violentamente a montanha, assobiando agudo por dentro da obra, é ainda suavíssima a voz do vento. O vento (como o horizonte) não é um corpo no espaço; é um elemento que trespassa os espaços escultóricos de CHILLIDA e cria relação com a paisagem e os espaços circundantes, o que, como último reduto, transparece e transborda na sua relação com o homem.
O vento, o fustigar do vento através dos corpos montanhosos, permite acordar a consciência do espaço, da imensidão do espaço, ao mesmo tempo que transporta a sua obra para a dimensão humana e habitável, assim desvelando um pouco a poética do espaço escultórico de CHILLIDA.
Não apenas a escultura, não apenas a paisagem. A vibração do vento na escultura guarda também em si a potencialidade de desvelar um pouco a verdade, a verdade dos espaços interiores de um homem, de uma obra, de um lugar.
E eu penso que CHILLIDA, ao refletir sobre a sua obra escultórica, parece desvelar também o espaço interior da poesia, da mesma forma que esculpe espaços poéticos nas montanhas.
«Deve haver algures no meu corpo um lugar expressamente reservado para a voz do vento uma cavidade qualquer assim como as salas de aeroportos destinadas às pessoas muito importantes mas esta minha só para o vento a única pessoa muito importante agora para mim»[2], corrobora RUY BELO, também ele escultor de espaços poéticos e outros espaços interiores.
As obras de CHILLIDA, como o poeta, parecem guardar em si espaços interiores reservados à revelação – do horizonte, do vento, dos elementos, da paisagem, do lugar que é o seu, da luz negra que é a sua, de ser um homem num lugar, aberto às inquietudes de todos os lugares do mundo e de todos os homens.
O vento, simultaneamente incorporação e metáfora da busca de unidade, do primitivo, do questionamento humano sobre o corpo, o espaço e a sua relação com o homem – vazio-cheio, aberto-fechado, opaco-translúcido. O vento trespassando a escultura e a poesia como vibração de uma verdade, enquanto claridade do ser, do originário.
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