sábado, 15 de junho de 2013

#3 mas não sabes de onde vem nem para onde vai

Corpo-espaço (continuação)

«El espacio y la materia no están tan distantes el uno del otro, quizás los separa una diferencia de velocidad. La matéria seria un espácio mais lento o el espácio una matéria mas rápida.»

Eduardo Chillida

Perante o labiríntico questionamento ontológico do espaço, HEIDEGER sugere percorrer o caminho etimológico para se alcançar o sentido do espaço: deste ponto de vista, o espaço suscita-nos uma ideia de espaçamento, de dar espaço, enquanto livre doação de lugares para o habitar do homem e para o advento do sagrado, no duplo movimento de conceder e dispor[1] [2].
Esta perspetiva permite superar a distinção inicial entre espaço e lugar, porque nem os lugares concedem espaços nem o espaço se oferece como um recetáculo vazio de lugares: o espaço é a incorporação e a reunião de lugares, relação de lugares que contêm em si os seus arredores, sem se dominarem, mas criando uma teia interpenetrante que define o espaço.
Neste sentido, a escultura é, por um lado, um corpo (matéria) no espaço. E é ainda, e em si mesma, o espaço de um corpo (e não simplesmente um corpo pertencente a um espaço-recetáculo vazio)[3].
Esta dupla dimensão é acentuada – se não mesmo superada – por CHILLIDA, ao reconhecer que «El espácio y la matéria no están tan distantes el uno del outro, quizas los separa una diferencia de velocidade. La matéria seria un espácio mais lento o el espácio una matéria mas rápida»[4].
A escultura é então um corpo no espaço e o espaço de um corpo, densidade e vazio, tempo e matéria. Um corpo-espaço.
Neste sentido, a relação da escultura com o espaço deveria ser pensada, não já como domínio da obra sobre o espaço, mas como confluência e interpenetração de espaço e densidade que a própria escultura revela.
A escultura (corpo-espaço) afirma-se, portanto, como potencialidade de articulação com os lugares seus vizinhos, na definição de um espaço comum, entrelaçando a obra com os espaços envolventes.
Deste modo, a escultura – através da interpenetração de espaço e matéria, e de abertura e aos espaços que o rodeiam – guarda em si a potencialidade de desvelar a verdade, o espaço verdadeiro[5]. Esta parece ser a perspetiva de CHILLIDA, apesar da (ou precisamente pela) consciência de que «el espacio perfecto es oculto, debo llegar a el por etapas».
E as suas esculturas, sendo obras acabadas e recortadas na paisagem, não se afirmam em conflito nem apropriação do espaço envolvente, mas em interligação, articulação e definição desse mesmo espaço.
Por isso, os vazios (aberturas) da escultura são tão ou mais importantes do que os seus cheios, permitindo a ligação com os vazios (as aberturas) do espaço exterior e envolvente.
Numa perspetiva plástica, a escultura tem a potencialidade de instaurar lugares e espaços, em articulação com a paisagem.
A escultura incorpora (dá corpo a) um espaço, como realidade ontológica e positiva (e não como mero vazio entre objetos), em relação com os lugares, assim potenciando a ligação, a criação de regiões (teias de lugares), abrindo a obra e o espaço escultórico à dimensão humana.
A escultura em integração com o espaço, em harmonia com o espaço, como meio de perceção do espaço. Um espaço que não é o negativo dos objetos (repositório vazio onde os corpos se alojam), que não é já delimitado pelas dimensões interior, exterior e seus limites, mas como algo positivo, vivo, corpóreo.



[1] IDEM, pp. 19 a 25.
[2] SARAMAGO, Sobre A arte e o espaço de Martin Heidegger, Artefilosofia, Ouro Preto, n.5, p. 61-72, jul.2008, p. 67.
[3] IDEM, pp. 27.
[4] CHILLIDA, Eduardo, Escritos, La Fabrica Editorial, Madrid, 2005, p. 55.
[5] HEIDEGGER, Martin, El Arte y el Espacio, traducción de Jesús Adrián Escudero, Herder, Barcelona (2009), pp. 21.

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