quinta-feira, 28 de junho de 2012

#7 o que arde cura

Lisboa envolvia-os devagar com a luz morrente do fim do dia, roçava-lhes a pele sob os sussurros longínquos dos cacilheiros a sacrificarem-se entre as duas margens. Em volta, pombos entregavam-se sem constrangimentos a rituais de acasalamento, primários e felizes.

Ele falava com entusiasmo nervoso, despejava-lhe no colo pormenores técnicos sobre a paisagem, a malha urbanística da cidade, segredos de engenharia sobre os alicerces do mundo.

O interesse dela era genuíno. Pelo movimento dos lábios dele, muito vermelhos, ligeiramente estreitos, a jorrar um intenso fluxo indefinido de palavras, grave, rouco, cantante. O sorriso fácil, inteligente. Os olhos negros, brilhantes, semi-cerrados pelo sol.

A pele bronzeada sob a barba mal feita. O modo como se reclinava na relva, cabelo desalinhado pelo vento. E ela bebia a paisagem dos lábios dele, devagar. Com a ponte ali despida sobre o rio, como uma mulher jovem, dormindo soterrada no seu leito, rubra, salgada, inundada das suas águas.

- Vamos jantar?

Ela assentiu com a cabeça. E seguiram, imundos, com a casa numa trouxa sobre os ombros, olhos fixos na carrinha de distribuição de comida que chegava.  

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