Percorria a estante da sala com a moleza da reforma, e detive-me numa velha lombada. Retirei o livro com cuidado. Era uma velha edição de poemas do Pessoa. Folheei o papel amarelado, separei as folhas coladas pelos anos, com manchas de humidade e cheiro misterioso a papel antigo.
Uma espécie de best of. Do guardador de rebanhos saltava para a tabacaria, do mar salgado para as tardes com Lídia junto ao rio. Nas margens tinha notas escritas com caligrafia cuidada, quase infantil, e versos sublinhados a azul. Como se um leitor antigo lhe tivesse entregue uma certa ordem.
Senti escorregar uma folha do livro. Apanhei-a do chão, um tanto embaraçado pela falta de jeito que as artroses me emprestaram às mãos. Era uma fotografia minha. Eu com ar de vinte anos. Alto, magro, cabelo escuro, olhos vivos. Prestes a embarcar para a Guiné, fazer a cobertura das conquistas lusas para a emissora nacional. Eu na fotografia manchada de dedos, contornos estragados, baça, toque oleoso. Parecia olhar para mim retribuindo o meu espanto. Como se nunca tivesse regressado. Ou não me reconhecesse as rugas.
Fechei o livro, desconcertado. Bati a porta de casa. Entrei no café do fundo da rua, barulhento, a cheirar a fritos. Queria almoçar, por favor. Trouxeram-me um prato indefinido. Tinha esquecido a fome pelo caminho, mas o garfo frio acordou-me a boca. Sabia a ferro, a coisa gasta e usada. Como a fotografia. Reabri o livro. Na primeira página, letra esbatida pelos anos, dizia: Para o António que está longe. Com Saudade. Tua Mãe.
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