quinta-feira, 14 de junho de 2012

#5 o que arde cura

Parti numa luminosa manhã de Abril. Lisboa, excessivamente bela, excessivamente minha, vestira-se de branco para a despedida. Corro o risco de parecer presunçoso (e um pouco piroso), bem sei, mas é assim que recordo aquele dia. A luz cegava e do navio vislumbrava apenas uma linha de vultos. Dizia adeus da amurada como se reconhecesse a Mãe, o Pai, a Avó Joana, a Margarida (tão menina ainda).

Sentia-me um pouco pateta com aquela farda cinzenta, de fazenda quente e patentes que eu desconhecia. Não fora o jeito para a escrita, certamente que as minhas armas seriam outras. Mas, sei lá eu por que proteção divina, o Estado entendeu que um jovem jornalista d’O Século serviria melhor o interesse nacional de caderno, lápis e câmara a tiracolo. E assim parti para a Guerra, um jornalista vestido soldado, com coração de D. Quixote e armas do faz de conta.

Naquela manhã, não tinha ainda impregnado na pele o cheiro do sangue, dos corpos, dos dejectos, dos fluidos, da morte, do medo. Não tinha sequer tocado Margarida mulher. Era só um rapaz vaidoso com pretensões de gente grande. E África parecia-me tanto.

* * *

- Senhor António, e elas caíam nessa?
- Nem queiras saber, rapaz. Só gajas.
disse o velho para o enfermeiro do asilo.

2 comentários:

  1. Na verdade ainda não o li. Mas acabou de subir mais uns degraus nas minhas altas torres de livros a ler ;)

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