O Manel passa o dia atrás do balcão, a tirar bicas, a servir pastéis de
nata, a inventar sorrisos para as velhotas. Tem um sorriso um pouco idiota,
como se não tivesse nada por dentro, como se todo ele fosse uma máquina de
tirar bicas, servir pastéis de nata e inventar sorrisos para velhotas. E um ar medíocre, preguiçoso, indolente, apático, desinteressante.
No café do Sr. Rodrigues, senhor de farta careca e escassos cabelos
brancos, trabalha ainda a Rita, miúda de vinte e poucos anos, traços asiáticos,
bonita, elegante, que o Manel trata com total indiferença.
No café ninguém imagina. Mas o Manel desinteressante é um prolífico
artista, tem um pequeno atelier no seu quarto arrendado na graça onde pinta avidamente enquanto os
outros dormem. E nele deixa toda a sua atenção, quando pelas manhãs se
levanta para tirar bicas, servir pastéis de nata e inventar sorrisos para as
velhotas no café aqui do bairro.
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