sábado, 16 de junho de 2012

#1 a dupla vida do pastel de nata

O Manel passa o dia atrás do balcão, a tirar bicas, a servir pastéis de nata, a inventar sorrisos para as velhotas. Tem um sorriso um pouco idiota, como se não tivesse nada por dentro, como se todo ele fosse uma máquina de tirar bicas, servir pastéis de nata e inventar sorrisos para velhotas. E um ar medíocre, preguiçoso, indolente, apático, desinteressante.

No café do Sr. Rodrigues, senhor de farta careca e escassos cabelos brancos, trabalha ainda a Rita, miúda de vinte e poucos anos, traços asiáticos, bonita, elegante, que o Manel trata com total indiferença.

No café ninguém imagina. Mas o Manel desinteressante é um prolífico artista, tem um pequeno atelier no seu quarto arrendado na graça onde pinta avidamente enquanto os outros dormem. E nele deixa toda a sua atenção, quando pelas manhãs se levanta para tirar bicas, servir pastéis de nata e inventar sorrisos para as velhotas no café aqui do bairro.

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