sábado, 16 de junho de 2012

#6 o que arde cura

a música é uma espécie de torre de babel, algo tão universal que não carece de traduções. gosto da björk sem perceber o islandês das suas canções e parece que até entendo melhor sigur rós por cantarem num dialeto inventado. falamos a mesma língua.

como uma casa-infância, essa espécie de denominador comum que todos um dia habitámos e todos continuamos a habitar numa memória inventada, reinventada, até se tornar uma espécie de tudo, um eterno retorno à idade da inocência, do bem e do belo. à distância a casa-infância torna-se quase platónica. mas a infância, a minha, a verdadeira, passei-a a enrolar-me na areia com a minha irmã e depois almoçar na praia à espera do senhor das batatas fritas e das bolas de berlim. é assim que imagino uma conversa com deus, que toda a gente sabe que deus gosta é dos pequeninos (não lhe dão demasiada importância, nem menos que a devida).

tive um professor de filosofia que dizia que deus pode bem ser um bife com ovo a cavalo – não que fosse um homem especialmente brilhante, mas esta sua expressão abriu-me novos horizontes sobre o problema do significado e do significante.

também me trouxe uma nova espécie de medo. porque se deus pode bem ser um bife com ovo a cavalo, então estamos numa espécie de universo branco, sem referências, inaudível, onde nada do que se conhece é reconhecível.

mas é também no desligar a palavra do seu significado comum, da sua zona de conforto, que encontro a vertigem e a liberdade da literatura. mar adentro, romper com o pré-estabelecido, quebrar laços entre palavras que pareciam feitas para estar casadas e sugerir um caso entre novas palavras aparentemente sem grande futuro numa vida a dois.

o desejo é este prazer da liberdade e da transgressão, o perscrutar do que é belo a partir do que temos de mais primitivo, de mais animal, de mais humano. digo: a ternura é pura nicotina. ou: o amor é uma vertigem alcoólica. onde as constelações adormecem e as tempestades despertam. um risco preto numa tela branca. o bigode do duchamp na intocável mona lisa.

e de novo a torre de babel, onde os bigodes do duchamp no rosto da mona lisa não precisam de tradução (a mona lisa também não precisa de tradução, justiça seja feita ao da vinci).

como a casa-infância: ainda não sabia falar e já compreendia bem o leite quente e os biscoitos de canela da minha avó. e a minha avó, que começa lentamente a desaprender a falar, ainda os reconhece também.

enrolar-me de areia na praia com a minha irmã é o inverso do medo. não que o medo seja um lugar afastado da infância, mas a casa-infância é a memória reinventada – e dessa ficam os filmes desbotados em tom vhs, brincadeiras na praia em fins de tarde de agosto, almoços de domingo em família, leite quente e biscoitos de canela.

o medo ainda, mas ténue na casa-infância. como nas conversas com deus, através das cantatas de bach ou da esperança inventada dos sigur ros ou da voz rouca da beth gibbons. e por dentro de tudo, o universo branco, sem referências, inaudível.

3 comentários:

  1. Oh Isabel, assim deixo de te escrever. Passei a ficar com vergonhas.
    Eu escrevo o que vejo. Torna-se para mim mais fácil ler-me, e ao mesmo tempo espero que seja fácil para os que me lêem. Mas ler-te deixa-me cego.

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