domingo, 24 de junho de 2012

#3 a dupla vida do pastel de nata

O Tiago, um pouco presunçoso dentro do seu fato escuro, botões de punho e gravata espampanante, falava de novo da infindável lista de livros que teria de ler antes de morrer.
- Mas tu não tens tempo para nada! Aposto que este ano nem um livro leste até ao fim, ripostou a Teresa, já farta daquela conversa de engate de jovem executivo de sucesso pretensamente alternativo e interessante.
O Tiago sabia que não tinha tempo para nada. Mas neste ponto era absoluto: tinha uma infindável lista de livros para ler antes de morrer (tivesse a mesma urgência de viver e talvez fosse feliz). E todos os dias comprava um livro da lista, com a secreta esperança de um dia recuperar todo o tempo perdido no terraço da ambicionada casa de praia na Comporta. Claro que o seu pequeno T0 já rebentava pelas costuras de tantos livros e sonhos afins acumulados pelo chão, alguns ainda dentro do invólucro de plástico da Amazon. E claro que o Tiago, que nem tempo tinha para ir ao IKEA comprar uma estante, e tinha que saltar sobre os livros quando saía de casa apressado pela manhã, já atrasado para uma reunião, não achou graça nenhuma à piadinha da Teresa. Mania de artistas plásticos desocupados, acham que o resto do mundo tem a vida deles. Mas o Tiago tinha um fraquinho pela Teresa, e bastou que ela lhe piscasse o olho com ar maroto para ele sorrir-se com a provocação:
- Se não acreditas, vem lá a casa. É mesmo do outro lado da rua, daqui a nada estamos de volta ao café.
Não parecia uma casa, parecia um armazém. Em pé de guerra, tantas eram as pilhas de livros em equilíbrio difícil pelo chão.
- Isto é uma loucura!, disse a Teresa boquiaberta, um pouco fascinada com o
cenário apocalíptico do apartamento.
- Talvez, mas eu gosto de tê-los por perto. O problema é que acabo por gastar o pouco tempo que teria para ler a comprar livros novos. Achas muito ridículo?
A Teresa sentou-se um pouco no sofá, agradavelmente surpreendida. Afinal talvez houvesse esperança para aquele presunçoso que não a largava havia meses.
- Acho que tenho a solução para ti.
- Vais comigo ao IKEA?
- Isso também, mas estava a pensar numa coisa mais divertida. E se eu pintasse as paredes da tua casa com lombadas de livros? Imagina: a casa toda forrada de livros, em branco, à tua espera.
- Em branco?
- Sim, à espera que lhes dês o nome dos livros que fores lendo. O que achas?
O Tiago devia recusar. O senhorio ia crucificá-lo se soubesse. Mas a ideia de ter a Teresa em sua casa todos os dias era demasiado apetecível. Com sorte, talvez conseguisse sair a horas do escritório e jantar com ela. Talvez se sentasse a ler enquanto ela tatuava a casa com os seus livros imaginados. Talvez...
- Negócio fechado, Picasso! Começamos amanhã?, perguntou o Tiago enterrando-se junto a ela no sofá, com a respiração acelerada, sentindo-se cool, quase um pequeno delinquente, nervoso e feliz com a sua decisão imponderada.

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