quarta-feira, 20 de junho de 2012

#2 a dupla vida do pastel de nata

Estavam num pequeno restaurante chinês perto da Praça do Chile. Por cima, a placa chambres, rooms, zimmer anunciava quartos semi-decadentes e uma frequência pouco ortodoxa. De frente, num bar de elegância duvidosa, um néon com meninas em poses burlescas trazia um pouco de cor ao jantar. O silêncio entre o Manel e a Margarida era constrangedor. Apetecia-lhe fugir. Arranjinhos de amigos nunca funcionam, toda a gente sabe. Ainda assim, depois de muita insistência, tinha aceite o encontro. Trágico-cómico. E o jantar estava no início. Podia simular uma urgência no trabalho, uma urgência familiar, uma urgência qualquer. Ou então fazer conversa durante mais duas horas, ele iria levá-la a casa, ainda o momento incómodo da despedida. Sem dúvida, uma urgência no trabalho seria a sua melhor arma. Um e-mail rápido ao André: Estou a ter o pior jantar do mundo. Liga-me com uma urgência qualquer e tira-me daqui por favor.
- Acho que o e-mail não era para mim. Este é mesmo o teu pior jantar de sempre?
A Margarida não podia acreditar que se tinha enganado no e-mail. Roxa de vergonha, desatou a falar muito rápido, tentando desculpar-se desajeitadamente.
- Tenho uma coisa para te confessar, disse o Manel perdido de riso. Também estou farto de arranjinhos, e pensei que se te trouxesse a esta espelunca e fosse o maior chato da hisória não me voltavam a impingir ninguém tão cedo! Achas mesmo que me estou a sair bem?
- Perfeito!, disse ela, rindo, nervosa e incrédula, quase aborrecida com o desplante dele. Então e o que tinhas planeado para o resto da pior noite de sempre?
- O mais difícil foi encontrar esta pérola. Espeluncas há muitas, mas com esta vista foi um autêntico achado. Já falámos do tempo. Agora ia falar-te do meu trabalho até faleceres de tédio. Depois espevitar-te-ia um pouco com as desgraças da semana, apimentando a conversa com comentários enfurecidos sobre a crise e uma pitada de machismo e xenofobia. O golpe final: pormenores íntimos sobre uma ex-namorada e a depressão em que estou desde que ela me deixou. Que tal?
- Estou impressionada.
E era verdade. O Manel despia-se à sua frente, amachucando as roupas de rapaz pateta e insosso debaixo da mesa. Era louco q.b. Mas tinha graça. E falaram, falaram, falaram. A noite toda. Gargalhadas incluídas. Até a pequena espelunca fechar.
- E agora?
- Agora convidas-me para jantar como deve de ser.
- E posso levar-te a casa?
- Estava com medo que não perguntasses.

Sem comentários:

Enviar um comentário