terça-feira, 10 de julho de 2012

a mesa, o vinho e nós


Ainda nem eu sabia o que era a vida, e já o homem me morria nos dias.
Lembro-me (ainda) nitidamente de uma gargalhada rouca e clara, e do brilhozinho nos olhos quando falávamos de amor.
“Mas gostas dele?”
E o sorriso rasgava mais, o sobrolho erguia, e a cabeça era atirada para trás, com o ar de quem condescende, mergulhado em ternura. Que alguém me ensinou, sem ter percebido, que era pura nicotina. As nossas horas eram pura nicotina, também. E algum vinho, cúmplice. Embriagados, íamos descosendo a noite e os segredos das horas, como se ao final de quase vinte anos houvesse ainda algo por revelar. as mãos em cima da mesa, e em cima delas, a rotina das almas entornadas, sem dar por isso. o sorriso era o mesmo do miúdo que ele nunca tinha sido, no silêncio e entre pausas. o abraço da despedida tinha também o mesmo cheiro dessa época em que se escreviam postais, ele com erros ortográficos, ela com inícios de aspirante a poeta.
Naquela noite, ela sonhou toda a escuridão e silenciou todos os gritos, que eram mudos, mas lhe agitaram a noite, até à primeira luz - como se, ao fim de quase vinte anos, ele precisasse de lhe dizer qualquer coisa.

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