Limpando o computador para abandonar o escritório onde trabalho há 3 anos, encontro o seguinte documento:
10.08.2010
Daí para a secretária que agora ocupava, a janela de lado a oferecer-lhe a sensaborona vista do prédio em frente, havia sido um instante que, agora, lhe parecia irreflectido e muito pouco sentido.
Não eram só as regras picuinhas, os procedimentos, os emproados, o irritante – oh!, tão irritante – pianar no teclado, não eram os prazos ou os documentos ou os requerimentos ou os emolumentos. Nem os ismos, nem as zações nem as dades. Era – caramba! -, era qualquer amargura que lhe causava tudo isso e um par de botas, era um desprezo imenso por tudo quanto fazia. Era isso. Era um desprezo imenso.
Não conseguia lembrar-se dos seus projectos de miúda (mais grave por não ter deixado de ser uma miúda). Não conseguia lembrar-se de nada que a entusiasmasse de forma particular.
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