sexta-feira, 20 de julho de 2012

e o que cura (também) arde, três

Perdoe-me quem passa, mas falo na primeira pessoa. Fazia calor e fui passear de mota com o R, para sentir o vento no cabelo. Onde queres ir? Toma o caminho mais longo. Quero ver a Cidade.
E fomos.
Subimos, descemos e contámos colinas, quantas colinas tem realmente Lisboa? (São Jorge São Vicente Sant'Ana Santo André Chagas Santa Catarina São Roque). Sete. Estás a inventar, não estás?, aposto que são menos e deram nomes a uns montes para completar o acto. Juro. Brincámos a Graça, cumprimentámos a Mouraria, demos a volta às luzes do Martim Moniz, afagámos a Sé. Namorámos, e namorámos Lisboa, com o jeitinho de um velho amor com sabor de fruta mordida. Como um carrossel, a cidade sobe e desce, o rio aparece e esconde, e os nossos olhos procuram o gozo de todos os cantos. A música do passeio sem pressa foi a das tascas iluminadas, dos carris que chiam, das campainhas dos eléctricos, das gargalhadas vestidas de verão, penduradas em janelas despudoradas

(dos semáforos tranquilos, o tempo aproveitado para suspirar 
o aconchego do cheiro-ainda a sardinhas e do sempre-cheiro a maresia.)

Acabámos pisando os becos de Alfama, de cabeça descalça. As pedras da calçada e os candeeiros de rua fascinam-me. Soou um fado quieto. Duas imperiais e uns pastéis de bacalhau. Depois vieram as saudades da Cidade que ainda ali estava ao meu colo. O riso, chorando (ou o choro, rindo?). No fim, as promessas de sempre. Temos de fazer isto mais vezes. Todos os dias.


(No dia seguinte, perguntava o velho senhor porque tinha tantas velas no bolo, se não havido vivido todos esses anos. E nós não voltámos ao fado.)

3 comentários: