sábado, 14 de janeiro de 2012

Para C. _ pelo dia de hoje.




Agarradas às cadeiras,
Quantas vezes colocamos a força do nosso voo
numa música?

Agarradas às cadeiras, quantas vezes
Tu estás à minha frente e estás

              no Cambodja,
              no Vietname
              E na Argentina?

Eu estou à tua frente e estou

             a palmilhar minhas histórias destras
             d`outra vida qualquer?

Quantas vezes somos puxadas
Pela força da gravidade dos sonhos?

E arrastadas para cima

Até furar o tecto da sala
Até partir o telhado do prédio
Até quebrar os pilares

Com que nos prendem lá em baixo
Na travessa dos papéis
Mesmo sabendo
Que as nossas pernas são mais longas
que a travessa onde nos vêem.

Quantas vezes
Nao abres a janela ao fim do dia
E o cigarro atropela euforias
Sobre o ruido da hora de ponta
Que não é senão a vida?

Quantas vezes
Eu olho e sinto
que tu,
o teu cigarro que atropela euforias,
e a tua cabeca inclinada sobre a cidade

Mereciam
nesse segundo...


Da voz portenha, o calor rouco
Da tasca de fado, o burburinho
Do povo que namora a liberdade
bebendo amigos com vinho.

Quantas vezes
Eu olho e sinto

Que tu,
A tua gargalhada escancarada
O teu passo decidido
E o modo como nos acendes em volta

Mereciam agarrar nesse segundo...

Com uma toada de bossa nova,
Toda a magnitude do mundo.


                   ***

Música: Dolo Maju: rie chinito

Fotografia:   "Flying Woman", de Lequernez

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